segunda-feira, 2 de junho de 2008

Editoria: Teatro/primeira matéria

Editoria:Teatro


Rua de emoções

A Companhia de Teatro de Rua Royal de Luxe mostra que é possível tornar o espaço público um lugar de arte e cultura

Postado por Cris de Oliveira

O teatro de rua é uma das mais antigas manifestações da cultura popular, traz na bagagem séculos de História e a influência dos espetáculos medievais. Seguindo essa linha, a companhia francesa de teatro de rua Royal de Luxe (link história..), que se caracteriza por usar marionetes gigantes em suas obras, vem se apresentando em espaços públicos de países da Europa, Ásia, África e América Latina.

Em 1993 inaugurou uma nova fase de sua história com a apresentação do primeiro de seus gigantes. A peça foi chamada de “Le Géant Tombe du Ciel” (link interno) (O Gigante caiu do Céu). Esta, até hoje vem sendo seguida por outras cinco mostras com gigantes relacionados: uma outra versão do primeiro show “Le Géant tombé du Ciel: Dernier Voyage”; “Retour d'Afrique”, que introduziu o filho negro do gigante que caiu do céuO pequeno gigante”; “Les Chasseurs de Girafes”, novamente com o pequeno gigante; “La visite du sultan des Indes sur son éléphant à voyager dans le temps”, mais conhecida como “La Petite Giante”, nessa história foi apresentada a filha do gigante; e “El rinoceronte escondido”, que estreou em Santiago, Chile, em janeiro de 2007.

Todas as características humanas e de animais são espontaneamente expressadas pelas enormes figuras, que passam até mesmo a interagir com os expectadores. Segundo Jean-Luc Courcoult (link interno), as histórias são simples para que qualquer criança seja capaz de entendê-las, e ressalta ainda, que é preferível perder alguma parte do espetáculo a deixar de interagir com os bonecos e atores, já que essa é uma das principais características do teatro de rua. Ao dar às suas produções várias camadas de significado, Courcoult evita demasiada simplicidade, das quais as pessoas tendem a cansar rapidamente.

A Royal de Luxe fez sua estréia no Reino Unido em 2005, com o Sultão do Elefante, um projeto que levou quatro anos de planejamento, e que é até hoje, considerado o melhor espetáculo do grupo. O sultão da história está à procura de La Petite Giante, que desembarcou em Waterloo Place, em um gigantesco foguete espacial inspirado pelas obras de Jules Verne. Na verdade, Jean-Luc Courcoult criou o show em homenagem ao centenário da morte de Verne, e que foi realizado pela primeira vez em Nantes e Amiens, locais de nascimento e morte de Jules, respectivamente.

A canção que acompanha o espetáculo é “Decollage”, e aparece no CD Jules Vernes Impact, do grupo Les Balayeurs du Desert (Os varredores do Deserto), uma banda de rock francesa criada por Michel Augier em 1995, mas que vem compondo músicas para a Royal de Luxe desde 1982. Assim como a Royal de Luxe, a banda não possui site na web, aumentando a curiosidade dos fãs que assistem seus vídeos na rede. A companhia de teatro não possui site na web por razões artísticas.

Confira a reportagem da BBC sobre "O sultão do elefante" em Londres.

Conheça o cronograma da Companhia. (link interno)

O Gigante que caiu do céu (link interno)

O show inaugural de “A Saga dos Gigantes” se deu com “Le Géant tombé du ciel”, em 1993, na França. Concebido para a população de Le Havre, o gigante aparece envolto por uma nuvem de pó branco, perplexo e hesitante, ele abre seus olhos. Apresenta vasos sangüíneos à mostra, e sobre o olhar terríveis sofrimentos suportados nobremente. Olha para baixo com incredulidade, e seus olhos varrem a multidão que o olha extasiada.

Trinta atores são necessários para manter o gigante em movimento. Toda a encenação apresenta um paradoxo: ao mesmo tempo em que enormes figuras incrivelmente humanas parecem mover-se por si só, vemos ao seu redor pequenas figuras vestidas de vermelho, que nada mais são do que homens executando alavancas, cordas e polias necessárias para o funcionamento da marionete. A Royal de Luxe não tem a preocupação em ocultar o movimento das pessoas por trás dos bonecos, ao contrário, ela o expõe ao máximo.

Em sua última aparição em agosto de 2006, no sul da França, o gigante sentou descalço sobre uma cadeira ancorada ao leito do rio Pont du Gard, dando a entender que o menino negro é seu filho e a pequena gigante vista pela última vez no Chile, quando a mesma perseguia um rinoceronte, é sua filha. Há rumores de que o gigante voltará em uma primavera para um encontro com a pequena gigante, o encontro, no entanto, pode não ser amigável.

Jean-Luc Courcoult: o diretor (link interno)

“Durante alguns dias eu tento dizer algo a toda uma cidade, algo que será falado em todos os cantos, seja na padaria ou no bar, no pavimento ou no escritório... Tenho visto adultos chorando, e não acredito que eles estejam chorando porque o gigante está indo embora, mas devido à perda de sua imaginação. Obviamente essas pessoas têm vivido momentos difíceis, e a maioria dos adultos passa a ter dificuldade em sonhar”.

O diretor diz considerar de extrema importância a forma como o público reage e participa das experiências criadas por ele. E a música desempenha um importante papel nessas experiências. “Estou constantemente à procura de sons da minha época, a música atua diretamente nas emoções e sentimentos, tomo muito cuidado com ela”, diz.

Para ele é fundamental que o desempenho aconteça em um espaço público e gratuito. “Assim posso alcançar as pessoas onde elas estão, enquanto no teatro tradicional, você só satisfaz a aqueles que têm a ousadia, os meios financeiros e culturais para entrar em um Teatro”, afirma.

História da Royal de Luxe (link interno)


Criada em 1979, por Jean-Luc Courcoult, a companhia possui certo gosto pelo trabalho coletivo. E a falta de investimentos financeiros fez com que o imaginário dos membros da companhia fossem estimulados. Objetos da vida cotidiana como banheiras, aspiradores e camas tornaram-se protagonistas de um mundo extraordinário. Logo a Royal de Luxe passa a se distinguir também por suas perturbações no espaço urbano.

Em 1987 a Agência Artística Francesa do ministério dos Negócios estrangeiros confia à Royal de luxe uma missão da embaixada artística ao Marrocos, o que foi decisivo para a ascensão da companhia . Esta, ainda sem apoio financeiro, lança uma chamada na imprensa nacional, certa de poder receber acolhimento. É o presidente da câmara municipal de Nantes que se apressa em responder ao apelo, e põe à disposição da companhia um hangar de 10.000 metros quadrados. Lá começa a criação do espetáculo que marca um momento decisivo para a companhia: A verdadeira história da França. Este espetáculo é apresentado pela primeira vez em Avignon, perto do Palácio dos Papas, em julho de 1990.

Em 1992, a equipe atravessa o oceano Atlântico com o espetáculo, tendo a América do Sul como destino, para a festa de comemoração da descoberta das Américas. Financiada pela cidade de Nantes, a apresentação teve uma de suas ruas fielmente reproduzida. Em mais uma aventura no exterior, em outubro de 1997, a companhia teatral vai a Camarões. A Royal de Luxe e seu gigante retornam da viagem em 1998, acompanhados de uma criança negra de seis metros. As visitas do gigante e de seu filho negro dão continuidade à narrativa, sendo apresentada na França e no Camarões, com os espetáculos “Pequenos contos negros”.

As ajudas públicas à companhia representam cerca de um terço de seu orçamento total, e a ajuda vinda das cidades, essencialmente da cidade de Nantes, representam 18% do mesmo (um terço do orçamento total que Nantes atribui à cultura). Sendo que há um acréscimo por espetáculo apresentado pela companhia. O montante vertido pela cidade para o espetáculo “A revolta dos manequins”, por exemplo, foi de 300.000 euros. O restante é conseguido com a venda dos espetáculos para apresentações em outras cidades e através das contribuições de co-produção.

Devido à grande notoriedade midiática e ao reconhecimento de suas tutelas, a Royal de Luxe tem seus meios financeiros libertos dos riscos de venda. Cada criação é financiada por um grupo restrito que investe na produção e acolhe as seguidas representações. Os espetáculos possuem um ciclo de vida econômico, o que permite ao grupo avaliar os riscos de produção e prever, em médio prazo, o volume de atividades.

Cronograma da Companhia de Teatro (link interno)

1979: Fundação da Companhia por Jean-Luc Courcoult, e apresentação de sua primeira criação: “Le Cap Horn”, nas ruas e espaços públicos. Royal de Luxe se estabelece em Saint Jean du Gard, e a partir daí, cria uma série de shows.

1980: "Les mystères du grand Congélateur".

1981 La mallette infernale ( The Infernal Attac1981: "La mallette Cristianismo".

1982: "Le parking des chaussures".

1983: "Publicité Urbaine". Paródia da publicidade, apresentada com grande sucesso na França e na Europa.

1984: Participação em diversos festivais, inclusive na Itália. Muda-se para Toulouse, e passa a explorar diversas formas de teatro de rua. O “quinze minutos de show” e “mostra sobre barcos”, por exemplo. Com espetáculos como: “La demi-finale du Waterclash” (um combate de cavaleiros ao som de rock, máquinas de lavar e de louças quebradas) e “La péniche sur les boulevards du Toulouse”.

1985:"L'Incroyable histoire d'amour d'une péniche et d'un scaphandrier", em Toulouse. A companhia ganha o concurso organizado pela Sociedade Nacional das Ferrovias da França (SNCF) com Roman photo : tournage, o que permite-lhe brincar nas estações das principais cidades da França. Michel Augier torna-se o compositor da companhia.

1987: Reprise melhorada de “Roman photo: tournage”. Se apresentam na França, Europa, África, América do Sul e Rússia.

1988: Fica dez semanas no sul do Marrocos.

1989: A companhia passa a residir em Nantes.

1990: “La véritable histoire de France”. Com esta criação, a Royal de Luxe oferece a sua visão sobre a História da França, se apresentando na França e em outros países da Europa.

1991: Com “Roman photo: tournage”, a companhia vai ao Japão, Coréia, Filipinas, Austrália e Nova Zelândia.

1992: Houve 16 espetáculos na América do Sul, durante a turnê “Cargo 92”. Este, organizado pela Royal de Luxe, fazia parte de uma ampla comemoração do quinto centenário da descoberta da América. A companhia se apresentou com “La véritable histoire de France”em sete portos de seis países ao longo da costa atlântica da América do Sul.

1993: “Le Géant tombé du ciel”, primeiro espetáculo da “Saga dos Gigantes”. Foi apresentado em Calais, Nimes, Nantes e Bayonne.

1994: “Le Géant tombé du ciel : dernier voyage”, um ano após a primeira apresentação do gigante. E “Le péplum”, um show teatral no qual a história decorre durante 2000 anos no Egito. O espetáculo foi apresentado 39 vezes, em onze cidades da França, e em países como: Holanda, Alemanha, Polônia, Áustria, Suíça, Austrália, etc...

1997: A companhia reside por seis meses no Camarões, devido a um empreendimento teatral. As apresentações tiveram lugar nas aldeias e nos mercados locais.

1998: A Royal marca o seu regresso ao solo europeu com uma série de espetáculos com histórias ligadas à África. O gigante volta da África com um filho negro e protagonizam o espetáculo “Retour d'Afrique” nas cidades de Le Havre, Nantes e Calais.

1999: “Petits contes nègres titre provisoire”, um espetáculo mais tradicional. Depois da estréia em Nantes, o grupo se apresenta em outras cidades francesas, na Europa e na América do Sul.

2000: “Les chasseurs de girafes”. O pequeno gigante volta à França acompanhado de duas girafas: um filhote de 4,5 metros e sua mãe de 12 metros de altura. Após uma estréia em Nantes, o “pequeno” africano e suas girafas partem à Abra, Lilá, Calais...

2001: A troupe teve sua residência no Guan Cun, uma aldeia na província de Shaanxi na China. Após três meses trabalhando no Norte da China, o grupo volta à Nantes com seis artistas chineses contratados.

2004: “Le tréteau des ménestrels : Soldes! deux spectacles pour le prix d'un. Uma versão revisitada do teatro clássico.

2005: “La visite du sultan des Indes sur son éléphant à voyager dans le temps”. Show criado em homenagem ao centenário da morte de Jules Verne, em Nantes e Amiens, locais de nascimento e morte de Jules, respectivamente.

2006: “L'éléphant et la Petite Géante” se apresenta em Londres, Calais e Le Havre.

2006: Reprise de “Roman photo” pela companhia chilena Gran Reyneta: Royal de Luxe faz história.

2006: “L'éléphant et la Petite Géante”, em dias de festa em Calais, a apresentação foi organizada por “Chanel” (cena nacional).

2007: “Le spectacle de la Petite Géante”, em Santiago do Chile.

2007: “Le spectacle de la Petite Géante” em Reykjavík, na Islândia.

2007: A companhia chilena “Compañía Gran Reyneta” reapresenta “Roman photo” aos "Tombées de la Nuit" em Rennes.

2007: "La Révolte des mannequins" é apresentada em Charleville-Mézières.

2008: A Royal de Luxe apresenta "La Révolte des mannequins" em Nantes, e em seguida, em Maastricht.

2008: “Le géant enterré vivant de Santa Maria”, apresentado no Festival Internacional de Teatro de rua em Santa Maria da Feira, em Portugal. As apresentações foram do dia 15 ao dia 17 de maio.


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