sexta-feira, 27 de junho de 2008

Editoria: Música

Música tipo exportação

Por Flavia Emilia

Brasileiro é apaixonado por música. Seja cantarolando no chuveiro, ao volante, batucando algum objeto ou até mesmo marcando com os pés, o brasileiro é essencialmente musical. "Todo sábado eu ligo o rádio no último volume e coloco o meu pagode pra todo mundo ouvir. Não dá pra viver sem música não, gente. Música alegra o espírito!", diz eufórica, dona Iraci de 65 anos. Há muito tempo que essa paixão ultrapassou as fronteiras e o mundo tem se encantado com a nossa batucada.

Observando esse sucesso e a necessidade de uma atenção maior a esse segmento da nossa cultura é que em 2005 foi criada uma política inédita no Brasil; a de promoção da música brasileira no exterior. O Pró-Música, programa de apoio à exportação da música, surgia com o objetivo difundir ainda mais a música tupiniquim. Entretanto, tem surgido um questionamento em relação ao sucesso internacional de alguns músicos brasileiros e a desvalorização dos mesmos no mercado interno.

Para o jornalista e crítico musical, Pedro Alexandre, essa desvalorização pode ter raízes históricas. “Se olharmos historicamente, talvez isso tenha sido iniciado por Carmen Miranda, artista que teve uma carreira forte aqui e depois foi ser estrela de cinema em Hollywood”, diz o jornalista. Pedro Alexandre fala também que o artista brasileiro é um andarilho e isso o torna conhecido em vários lugares, entretanto, ele distingue o artista nômade dos artistas que tiveram seus trabalhos consagrados fora do país por causa do exílio. “muitas vezes o sucesso no exterior dos artistas brasileiros é vivenciado como um período de exílio ou do país ou de uma camada do público”.


Pedro Alexandre acredita que é importante uma valorização desses artistas por parte do próprio povo brasileiro. “Por mais que seja motivo de orgulho ter essa gente toda tocando lá fora, é motivo de vergonha que a gente aqui dentro não as valorize” , diz o jornalista. Em alguns casos, alguns artistas começam a fazer sucesso fora do país e depois passam a ser reconhecidos no Brasil. É o caso de Tom Zé. O músico foi descoberto pelo também músico, o norte-americano David Byrne que escutou por acaso seu CD "Estudando Samba".

Há quem diga também que a música brasileira não faça tanto sucesso como muitos afirmam. "Sempre que um cantor brasileiro se apresenta no exterior, grande parte de seu público é formada por imigrantes pátrios matando saudades da terrinha. ", diz o jornalista Sérgio Martins. O que acontece em alguns casos, é que a "brasilidade" da nossa música fica perdida em meio aos padrões tipo exportação. Existe uma música brasileira aqui e outra que os "gringos" gostam de escutar. Essa é a música tipo exportação que precisa obedecer a certos padrões pra fazer sucesso no exterior e que muitas vezes está distante da genuína MPB.

Bebel Gilberto, filha do cantor João Gilberto, mora nos Estados Unidos desde o início dos anos 90 e pode ser considerada como integrante do grupo "tipo exportação". Seu primeiro trabalho solo, Tanto Tempo, é uma bossa nova recantada, com um toque de ritmos eletrônicos. Bebel é mais uma prova de que quem cumpre essas exigências de mercado faz mais sucesso, já que esse trabalho já contabilizou mais de 50.000 cópias vendidas. O que deve ser repensado é até que ponto a música brasileira sai ganhando com essa internacionalização.

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