Entre o social e o surreal
Por Cris de Oliveira
Uma tendência teatral portadora de uma expressividade inovadora, o teatro do absurdo procurava utilizar elementos chocantes do ilógico, propondo uma reflexão a respeito do absurdo panorama político da Europa pós Segunda Guerra Mundial.
Encenação de “Esperando Godot”, de Samuel Beckett.

Samuel Beckett
A principal fonte de inspiração dos dramas absurdos era a burguesia ocidental, que, segundo os teóricos do Absurdo, se distanciava cada vez mais do mundo real, por causa de suas fantasias e ceticismo em relação às conseqüências desastrosas que causava ao resto da sociedade. Um dos autores de vanguarda do Teatro do Absurdo é Samuel Beckett autor do clássico Esperando Godot, e que ganhou o Prêmio Nobel em 1969. O Absurdo, assim como o Dadaísmo, promoveu a revolução na linguagem e na ideologia da sociedade, obtendo muitas críticas de um público que, apesar de proletário, consumia o idealismo burguês da época.
Eugene Ionesco
O termo "Teatro do Absurdo" foi criado pelo crítico norte-americano Martin Esslin, procurando agrupar sobre um mesmo conceito obras de dramaturgos com características bastante destoantes, mas que compartilhavam essa maneira "absurda" de abordar os temas em sua obra. O Teatro do Absurdo, porém, não foi uma escola, não havia uma filosofia coerente que os unificasse. Eugene Ionesco, um dos principais representantes dessa dramaturgia afirmaria que talvez preferisse designar seu trabalho como “teatro do ridículo”, ou “teatro da ridicularizarão”, reafirmando o caráter humorístico que permeia seu trabalho.
O teatro nonsense, ou o absolutamente sem-sentido é freqüentemente confundido com o absurdo, porém na essência eles divergem, pois o sem-sentido não possui uma gramática, isto é, não tem leis naturais de significação, ao passo que o absurdo é apenas visto como uma parte especial do que tem sentido, sendo por isso sinônimo de contra-senso. Sendo este tudo o que é contrário ao bom-senso, portanto, tudo o que imobiliza o senso comum.
Link: Leia a entrevista com a coordenadora do projeto “Espaço de Estudo e Criação Cênica”, Nanci de Freitas, sobre Teatro do Absurdo
Link: Conheça e assista a um trecho da peça precursora do Absurdo Esperando Godot
Link: Conheça as mais novas peças do gênero Absurdo
Entrevista com a professora de Artes Cênicas Nanci de Freitas
Nanci de Freitas é professora de Artes Cênicas do Instituto de Artes da Uerj, e coordenadora do projeto: “Espaço de Estudo e Criação Cênica”.
Por Cris de Oliveira
1) Qual a sua opinião sobre o Teatro do Absurdo?
NF: É uma tendência que foge à dramaturgia comum, mas é também uma denominação polêmica. Há muita controvérsia a respeito do Teatro do Absurdo, pois são vários autores muito diferentes, com estilos próprios, que foram agrupados sob a égide do absurdo, por falta de uma outra classificação mais adequada para cada um.
2) Mas esse teatro teve também um papel social. Você acha que esse papel vem sendo explorado pelo teatro atual?
NF: Sim, claro que teve. Acho que esse papel foi incorporado aos demais estilos teatrais. O teatro do absurdo se transformou em clássicos do teatro moderno como a peça Ubu Rei de Alfred Jarry e O Rinoceronte de Eugene Ionesco. O teatro contemporâneo trabalha muito com a desconstrução, e isso foi herança do absurdo. Desconstruir as coisas, mudar de lugar, para ver como funciona, para causar um estranhamento na platéia, e provocar uma reflexão. Em O Rinoceronte, por exemplo, os habitantes de uma cidade vão se transformando em rinocerontes, mas existe um personagem que se recusa a se tornar um rinoceronte, se recusa a ser infectado pela mediocridade, enquanto os outros transitam em paz se achando os seres mais lindos e inteligentes do mundo. Acho que o teatro moderno tem muito dessa noção, dessa postura da peça do Ionesco.
3) As atuais encenações das peças de Beckett e Ionesco ainda possuem a essência das originais?
NF: Bom, eu acho que elas vão ganhando sentido de acordo com o momento. Há várias interpretações dessas peças, e a forma como cada um a vê depende do contexto no qual se está inserido. Posso dizer que elas vão sendo renovadas.
4) Franz Kafka não faz parte do estilo absurdo de teatro, no entanto, seus personagens também vivem situações incompreensíveis. O que o distingue do teatro do absurdo?
NF: O teatro de Kafka tem características do absurdo, mas devemos entender que o teatro do absurdo não foi um movimento como foi o surrealismo e o dadaísmo, é apenas uma tendência teatral que ocorreu em um determinado momento. Além disso, o teatro do absurdo está associado à dramaturgia, aos dramaturgos, e Kafka foi um romancista. Mesmo assim, já vi teóricos o enquadrarem no teatro do absurdo. Houve várias tendências absurdas em todo o mundo, e mesmo muito antes do “surgimento” desse tipo de teatro. Aqui no Brasil, Oswald de Andrade na peça “A Morta”, já fazia teatro do absurdo. O gaúcho Qorpo Santo, em pleno século XIX, e que nunca saiu de sua província, é considerado o precursor do teatro do absurdo que foi nascer em meados do século XX na França. Então, você vê que foi uma tendência que foi surgindo, pipocando em vários lugares.
5) Quais as melhores peças atuais que possuem influência do Teatro do Absurdo?
NF: Acho que eu não saberia te dizer...O absurdo está disseminado de uma forma geral no teatro moderno, há uma polissemia absurda, não está mais só focada no texto. Mas acho que o Gerald Thomas faz bem esse estilo, ele trabalha muito com a desconstrução da cena nacional e da linguagem também.
6) Esse tipo de teatro nasceu em um contexto social em que a burguesia ocidental era o principal alvo de crítica. Hoje qual seria o maior absurdo das relações sociais?
NF: Os grandes paradoxos da sociedade de consumo e a mídia. Principalmente a mídia, pois temos aí uma sociedade que é controlada pela mídia, é o principal controle social que a gente tem hoje. A mídia é um absurdo! O teatro da vertigem já faz um pouco isso de contestar a cena social, como acontece em “Apocalipse 1,11”.
7) E para você? Qual seria a verdadeira função do teatro?
NF: A palavra teatro vem do grego ir para ver. Então, acho que é isso, a possibilidade de ter um contato direto, quase físico com a platéia. E nesse mundo virtual que a gente tem hoje, o teatro ainda continua sendo um lugar privilegiado. O impacto é maior, pois você está ali naquele exato momento em que tudo está acontecendo, o que possibilita uma maior reflexão, a crítica tem um maior impacto também. É maravilhoso!
8) Qual o estilo predominante no teatro brasileiro atual?
NF: No mercado brasileiro, do que temos 80% é comédia, principalmente a comédia de costumes. Comédia é o que mais atrai, sem dúvida, até mesmo pelas características do brasileiro, do nosso jeito de ser. Mas temos os clássicos musicais também, como “Ópera do malandro” e Carmem Miranda, e mais recentemente os importados. Um estilo que vem despontando é o teatro experimental.
9) Qual a contribuição do teatro do absurdo para o atual estilo do teatro brasileiro?
NF: A mistura de linguagem do teatro brasileiro é um pouco absurda. E na própria comédia de costumes, que é uma revisitação do besteirol dos anos 80, há muitas situações absurdas que surgiram a partir do estilo de teatro do absurdo.


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